CARTA ABERTA DE CAMILO MORTÁGUA AOS COMPANHEIROS DO PCP

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Carta aberta aos velhos companheiros do Partido Comunista Português, a propósito da rejeição pelo P.C.P. do voto de censura à condenação dos activistas angolanos.

Recordados companheiros de luta:

Sei que a minha idade deveria ser suficiente para me evitar surpresas amargas devidas ao comportamento dos Humanos, (sobretudo quando colectivas).

Normalmente aceito com relativa mas forçada compreensão que as gerações que nos sucederam e nunca sofreram na pele e na alma a frustrante raiva da impotência, face ao aviltamento imposto pelos usurpadores dos poderes dos Povos, adoptem atitudes branqueadoras, de comportamentos anti-democráticos quase sempre justificados com “legítimos interesses” a defender, sejam eles individuais ou de grupo.

Em essência, é a aplicação prática da velha e dizem que “sábia” regra de ser forte com os fracos e subserviente com os fortes.

Compreender, compreendo, mas não posso concordar, nem aceitar, nem sequer justificar com pretensas consequências maléficas das crises dos tempos.

Companheiros e camaradas de luta. Mais de luta que de ideologia. Que têm feito vocês? Que têm ensinado aos novos dirigentes do vosso partido, outrora internacionalista e solidário com as lutas dos oprimidos de todo o Mundo?

Sim Camaradas, porquê se apagaram tão depressa as vossas memórias?

Porque negaram os relatos das vossas experiências, aos jovens ou menos jovens que hoje falam em vosso nome?

Porque deixam calados os milhares de exemplos de homens e mulheres das mais diferentes nacionalidades, que estiveram ao nosso lado na luta pela nossa LIBERDADE, oferecendo tudo e até, em alguns casos, a sua própria liberdade e vida.

Estão de acordo em renegar esse passado? Estão de acordo em apagar da História das lutas pela dignidade Humana, os milhares de exemplos, de companheiros e camaradas, Comunistas, Socialistas, Democratas ou simplesmente Humanos, que a todos nós nos acolheram e por nós se manifestaram nas ruas das capitais da Europa e do Mundo?

Que moral é essa, que continua a ser manipulada para justificar o injustificável.

Será por uma questão de hábito?

As relações de absoluta dependência orgânica, material e estratégica, que caracterizaram o passado, não existindo no presente, não podem ser aceites como bodes expiatórios de comportamentos que denigrem e ofendem a memória dos companheiros internacionalistas (de todos os grupos) que tanto nos apoiaram. Hoje, quem vos condiciona, companheiros? Possivelmente… quem querem defender?!

Quando em vosso nome se proclama:

“- O P.C.P. reitera a sua consideração de que cabe às autoridades judiciais angolanas o tratamento deste ou de outros processos que recaiam no seu âmbito. A rejeição do presente voto por parte do P.C.P. emana da defesa da soberania da República de Angola e da objecção da tentativa de retirar do foro judicial uma questão que a ele compete esclarecer…”

– Então camaradas, é verdade ou mentira que: para serem coerentes com a vossa posição de hoje, em linguagem dos tempos áureos da vossa gloriosa luta contra a ditadura pró-fascista, vocês, em situação parecida com a actual ,diriam, qualquer coisa do género?:

– “O P.C.P: apela a todos os governos e povos democráticos de todo o Mundo para que em defesa da soberania da República Portuguesa não nos apoiem, nem interfiram na nossa luta pela liberdade e democracia. Favor não interferir com os métodos e decisões do sistema judicial português, nem denunciar internacionalmente a tortura e absoluto desrespeito pelos direitos fundamentais dos democratas portugueses que se opõem há ditadura.”

É companheiros… justificar os nossos compromissos, com os maus exemplos de outros, é coisa antiga, não pode fazer parte dos princípios orientadores duma nova maneira de fazer política.

Saudações solidárias
Camilo Mortágua
Abril de 2016